O QUE RELATAM E PENSAM OS FAMILIARES / 02

 Estamos indo dormir após a meia-noite

A rotina de toda família está extremamente bagunçada, ela [a filha] tem ido trabalhar conosco todos os dias, pois a escola e recreações estão fechadas e não temos outra pessoa responsável que possa nos ajudar com os cuidados dela. Está sendo extremamente difícil, como ela vai trabalhar conosco, não podemos dar atenção a aulas durante o dia, deixamos para a noite. As aulas começam as 18:30 e vamos até próximo das 22:30. Sendo assim acaba prejudicando a nossa alimentação e nossa rotina diária, estamos indo dormir após as 00:00.” (Mãe de estudante de 7 anos, Escola Municipal no Litoral do Paraná).

 

A prova de que não está aprendendo

“(…) Fora as cobranças de realizarem as atividades pelo aplicativo... Ela faz por fazer porque entender mesmo está difícil. (…) Ela erra mais do que acerta, essa é a prova de que não está aprendendo nada. Somos super a favor de estudarem neste tempo difícil em casa…. Mas as aulas poderiam ser mais chamativas e atrativas para prender a atenção dos alunos... Tem uma pressão muito grande sobre a realização das atividades e de terem notas. O sistema educacional dá a entender que se preocupa apenas com os números e não qualidade… Vemos os professores enlouquecidos, porque também não estão dando conta de tudo que estão sendo cobrados.” (mãe de estudante de Escola Estadual do Litoral do Paraná)

 

Temos acesso e encontramos dificuldades

Temos acesso ao canal aberto, ao aplicativo e internet, mas pensamos naqueles que não tem o mesmo acesso. E, se estamos encontrando dificuldades, imagina os alunos que não tem as condições! Nós [pai e mãe] concluímos um curso técnico em EAD por dois anos. Para nós, adultos, encontramos muitas dificuldades de nos organizar e conseguir nos comprometer. Fora que para entender era bem complicado... agora imagine para as crianças e adolescentes como está sendo complicado. (pais de estudante, 12 anos, de Escola Estadual do Litoral do Paraná).

 

Pouco proveitosas, exaustivas.

As aulas têm sido pouco proveitosas, pois são muito exaustivas e não condizem com a realidade, por serem aulas voltadas especificamente para a cidade de Curitiba. Nem com o nível de aprendizagem da criança. Todos os dias minha filha tem chorado e continua falando que aquelas professoras não são professoras dela, que essas professoras são muito ‘infantis’, e que ela sente muita falta da escola.” (Mãe de estudante de Escola Municipal no Litoral do Paraná).

 

Rapidamente as coisas mudaram

No começo das aulas remotas, todos ficamos empolgados. Foi reconfortante fazer contato com as professoras e com os colegas através do grupo. Pensávamos que seria muito bom para as crianças separar 2h30min do dia para uma atividade educativa sugerida pela escola. Muito rapidamente as coisas mudaram. De uma singela recomendação da escola, as aulas remotas se tornaram uma obrigatoriedade, sendo feita uma chamada pelo WhatsApp, onde alunos tem que registrar a presença (sob o risco real de ganhar uma falta) e COMPROVAR esta presença através de fotos das atividades realizadas no caderno para a correção da professora. (Eu tenho pena da professora que tem que corrigir o caderno - e os garranchinhos - dos meus filhos através de uma foto de celular).” (pais de estudantes, de 7 e 8 anos, do 2º e 3º anos em Escola Municipal no Litoral do Paraná).

 

Pausar, copiar, reforçar: muita coisa ficando para trás

Essas aulas, que deveriam durar 2h30min, acabam tomando 5h a 6h do nosso dia em família, pois precisamos pausar os vídeos várias vezes para que as crianças copiem e realizem as atividades de maneira completa. Temos que reforçar a explicação muitas vezes, e até recorrer à pesquisa na internet para que as crianças consigam apreender alguns conteúdos. Muita coisa está ficando pra trás. A aula de ciências chega a abordar 3 temas complexos diferentes em uma única aula de 40 minutos (uma das aulas abordou reciclagem, refração da luz no globo ocular e troca de temperatura - na mesma aula, para o 2º e 3° ano, repito, em 40 minutos).” (mãe de estudante da Escola Municipal no Litoral do Paraná)


Focada em fazer atividades

A C. [filha] está com muita dificuldade para assistir as aulas, porém está bem focada em fazer as atividades passadas pelos professores.  Não está gostando nem um pouco de assistir aula em casa, prefere que seja presencial.” (Pai de estudante de Escola Estadual do Litoral do Paraná).


Prova. Avaliação valendo nota.

“Além das aulas pela TV/Youtube, a escola envia atividades impressas semanais, que tomam mais algumas horas do domingo, que deveria ser o dia de descanso, para a sua realização. Nesta última semana foi enviada uma atividade que a coordenadora chamou de ‘Avaliação - Prova’. Prova. Avaliação remota, valendo nota, valendo a aprovação do aluno, sabendo que muitos dos alunos da rede municipal sequer conseguiram acessar à primeira aula pela TV ainda.(Mãe de estudantes da Escola Municipal no Litoral do Paraná)

 

Acesso desigual e relevância de saberes.

“O acesso não é igual para todas as famílias. (...) Estamos vendo aulas gravadas pela Secretaria Municipal de Curitiba, onde a cidade com seus bairros, pontos turísticos, história e particularidades é o tema de muitas das aulas, o que nos faz questionar qual é a relevância desse saber para as crianças de Matinhos. (...) Acreditamos sinceramente que a Secretaria de Educação de Matinhos, Escolas e suas equipes, e especialmente quem está na linha de frente - as professoras - estão fazendo o melhor possível para que este não seja um ‘ano perdido’ para as crianças. Este modelo novo, porém, está gerando muita ansiedade na nossa família, e nossa rotina virou de cabeça para baixo, com a falta de interesse crescente das crianças, crises de choro e revolta por não conseguirem realizar a maioria das atividades sem auxílio de um adulto, falta de vínculo entre aluno e professor, e a pressão da escola sobre nós, família, para que tudo seja feito, registrado, correto, comprovado, notificado, avaliado, etc. Essa cobrança em relação a presença e avaliação, em nossa opinião, precisa de ajustes.” (Pais de estudantes de Escola Municipal de Matinhos/PR)

 

Fica de castigo direto.

Meu filho não presta atenção, ou faz tudo correndo ou, se eu não patrulhar (ele fica na sala, eu no escritório) abre um jogo e já era... Muito difícil, fica de castigo direto. Como mudou de escola no começo do ano, não teve tempo de criar laços com a turma, não tem vontade participar, não quer que o vejam no vídeo, sempre bloqueia. Semana passada começou a ter aula de educação física por vídeo também, ao vivo, antes o professor gravava e enviava alguma atividade. Ele gostou bastante, mas é limitado o que pode fazer por morar em apartamento.” (Mãe de estudante de Escola Particular de Porto Velho/RO).

 

Tempos difíceis

“Estamos passando por tempos difíceis quanto ao estudo, pois está complicado. As aulas on-line não dão um suporte necessários para os alunos. Pelo menos aqui em casa minha filha vê as aulas mas não consegue entender e compreender a matéria. E não resolve assistir novamente porque a explicação é a mesma... Não é explicada de modo que tire as dúvidas... Infelizmente estamos lidando com crianças que não sabem ainda o que é comprometimento, e claro que as aulas não são atrativas para elas. Minha filha acaba ficando sozinha em casa para assistir as aulas e sabe como é ... Outras coisas são mais interessantes que as aulas. (Mãe de estudante de Escola Estadual do Litoral do Paraná).

 

Descobrimento das diferenças.

Do que ele sente falta? De pessoas da idade dele. (…) Não necessariamente escola… Nas brincadeiras, nos relacionamentos sadios, nas dificuldades do ego estão muitos aprendizados da vida. Acho que os que realmente importam...... Porque conteúdos, graças à tecnologia e à internet, as crianças poderão ter a possibilidade de carregá-los na palma da mão. Mas penso que o descobrimento das diferenças e do mundo, o autoconhecimento e a empatia se fortaleçam nas interações em grupo, com orientação consciente. Para que as crianças saibam COMO utilizar as informações disponíveis de forma construtiva para o todo..” (mãe de estudante, Escola Municipal de Guaratuba/PR).

 

Pior ter a mãe no lugar da professora. 

“Quando não é possível o meu acompanhamento, percebo que, na maioria das vezes, não há absorção do contexto, apenas cópia do conteúdo. Embora tente disfarçar, julgo muuuuito cansativa a dependência que ele tem de mim para absorver as aulas diariamente. Imagino que pra ele seja ainda pior ter a mãe no lugar da professora.(Mãe de estudante de 8 anos, Escola Estadual do Litoral do Paraná).

 

Relatam experiências sobre o isolamento.

A Professora do meu filho abriu um whats para conversar e auxiliar nas tarefas escolares, que também serve para estes conversarem sobre o momento. (…) As tarefas tentam sempre tratar de incluir um pensamento sobre o momento de isolamento, reflexões sobre tudo isto, que as crianças periodicamente relatem suas experiências de isolamento, que atividades fazem, e por aí afora.” (Pai de estudante, Escola Particular de Curitiba– PR).


O QUE RELATAM E PENSAM AS CRIANÇAS / 02

 Na casa da minha tia

“Eu vejo as aulas na casa da minha tia, ela tem TV boa. Mas minhas primas ficam juntas. Então não dá para assistir tudo, porque elas estão no terceiro… A gente acaba brincando mais do que assiste, tem dia.” (estudante de 10 anos, Escola Municipal no Litoral do Paraná)

 

Umas e outras

“Eu não gosto muito de umas aulas. Outras são legais, só que vai ficando chato, porque eu fico sozinho em casa. É mais fácil quando minha vó ajuda, ou depois que minha mãe chega do trabalho.” (estudante, 9 anos, Escola Municipal no Litoral do Paraná)

 

Dá para achar tudo na internet

No começo o professor me disse que eu tinha que responder no classroom, mas eu nem sabia o que era esse negócio. Aí meu pai ajudou e agora eu já consigo. Eu nem preciso assistir as aulas. Dá para achar tudo na internet, as explicações (...) até as respostas têm lá.” (Estudante, 11 anos, Escola Estadual no Litoral do Paraná).

 

Diálogo entre mãe e filha

Mãe: Eu quero saber o que você está achando dessas aulas online.

Filha: Elas são muito chatas. (…) Porque tem que ficar pegando livro, fazendo aquilo. Mas tem uma parte legal da aula online.

Mãe: Qual?

Filha: O grupo das meninas… Quando a aula acaba e aí algumas meninas ficam lá e ficam fazendo algumas coisas.

Mãe: Por que você acha que ela não tá sendo tão legal assim?

Filha: Porque ela [a professora] em alguns vídeos, ela fica muito tímida... Aí ela, em alguns vídeos, não aparece.

Mãe: É só a voz dela, né? E aprender desse jeito é diferente?

Filha: É difícil! (…) Porque aprender desse jeito, a gente não consegue aprender direito, porque a aula não tá sendo legal e a gente não consegue prestar muita atenção.

Mãe: O que falta?

Filha: Falta a gente brincar.

Mãe: Aprende mais quando tá com os amigos? Por que você acha?

Filha: Porque quando tá coletivo, se um não aprende o outro explica, aí vai indo. Coletivo é mais legal, assim. Aí a gente, quando a professora vai no banheiro e beber água, os outros amigos explica o que é pra fazer antes da professora chegar. Aí ninguém fica perdido.

(Diálogo entre mãe e filha, de 6 anos, Escola Particular de Curitiba/PR, disponibilizado por vídeo pela família)

 

Gosto muito de ler com minha mãe

“Eu gosto muito de ler com minha mãe, que ela me ajuda nos livros mais grandes. Mas as aulas, assim, são lá de Curitiba os professores, daí não tenho muita vontade... A minha mãe manda fotos para minha professora, que ela pediu para me ver. Ah, eu gosto mais das aulas do meu irmão, quando ele tem experiência para fazer em casa.” (Estudante, 8 anos, Escola Municipal no Litoral do Paraná).

 

Na escola todo mundo brinca

 "Não gosto. Prefiro ter aula na escola. Na escola é bem mais legal, porque todo mundo brinca. A internet fica travando quando quero falar alguma coisa." (Estudante, 6 anos, Escola Particular de Curitiba – PR).

 

Eu posso assistir no youtube

“Minha mãe briga comigo para eu assistir as videoaulas, mas até ela reclama dessas aulas, quando ela ouve de longe. Eu deixo para fazer tudo a noite, que posso assistir no youtube, no celular da minha mãe. Na TV é muito ruim” (Estudante, 12 anos, Escola Estadual no Litoral do Paraná).


Teria que ser diferente

“O certo era eu ter computador, assim, tipo de youtuber. Aí não daria tão ruim, de ficar travado, né? Eu acho. E se meus amigos também tivesse, seria muito legal, né? Porque eu sei que tem outros, assim, amigos meus até, que não tem um celular, que precisa ver na TV. Daí é mais ruim, né? Teria que ser diferente essas aulas, porque se uns não podem, tinha que mudar para todos, né?” (Estudante, 11 anos, de Escola Estadual no Litoral do Paraná).

 

Meio triste

“Eu estou achando triste muita coisa, porque na minha casa eu tenho minha mãe doente. Os professores ficam cobrando, mas eu não consigo aprender… Não tenho vontade agora para essas aulas. Dizer que não é importante, eu não digo, porque eu entendo. Mas minha cabeça não tá boa para fazer os exercícios que valem nota. Vou ter que fazer muita recuperação desse jeito.” (Estudante, 13 anos, de Escola Estadual no Litoral do Paraná).


A PANDEMIA E AULAS REMOTAS

Lugar de criança não é apenas na escola. Mas são as crianças que dão sentido à escola, como lugar. O isolamento social provocado pela pandemia do coronavírus modificou nossa rotina e a nossa relação com a educação, pois em boa parte do estado do Paraná, as aulas e as atividades escolares são realizadas dentro das casas. Como será que estamos lidando com isso? Existe uma fórmula mágica, uma maneira correta de como agir? É possível garantir o processo ensino-aprendizado nesse contexto? Quais as formas mais interessantes e viáveis de manter a relação das crianças com suas escolas?

E quem deveria ser ouvido sobre essas e outras questões, inquietações e experiências?

Enfim, nesse espaço compartilhamos um pouco do que vivenciam e do que pensam crianças e seus familiares a respeito da pandemia, de suas rotinas e de aulas remotas.

Essas primeiras publicações são da cidade de Matinhos, localizada no litoral do Paraná.

Acompanhe o nosso blog, pois logo publicaremos mais relatos.


O QUE RELATAM E PENSAM AS CRIANÇAS / 01

Me esforço, mas...

“Nossa rotina agora... meu pai trabalha meio período, faço o almoço mais cedo. Sinceramente, para mim está quase a mesma coisa, só que não vejo mais minhas amigas e sinto saudades delas. Em relação as aulas em casa, há dificuldades, não estou aprendendo quase nada. Isso que eu me esforço muito, mas parece que entra por um ouvido e sai pelo outro. Mas há vantagens: nas aulas posso ficar debaixo das cobertas.” (Aluna de Escola Estadual de Matinhos/PR)

 

Falta de um professor

“Estudando em casa é que percebemos o quanto um professor (a) faz falta nas nossas vidas. Quando estamos na sala de aula achamos que eles são chatos e muitas vezes não sabemos porque eles estão ali presentes. Mas agora penso quanto eles fazem falta” (Aluna do 7º ano, Escola Estadual, Matinhos-PR)

 

A professora da TV acha que...

“… acho bem chato que no período do coronavírus, eu não posso brincar com meus amigos... As vezes a professora da TV acha que a gente é um bebê, e dá tarefa muito fácil. E eu gosto que a minha mãe acompanhe nas [aulas], pois as vezes não consigo acompanhar muito bem” (Aluno de Escola Municipal de Matinhos – PR).

 

Um papo no WhatsApp


-        Oi “J.” Estou com saudades de você... Não tô conseguindo fazer as atividades dessas aulas falsas não. Não tô conseguindo não!

 

           -        Oi “C.”, eu tô com saudades de ti também. Eu não tô achando essas aulas muito fáceis não. E no próximo ano a gente não vai precisar ter feito... que essas aulas são coladas com do 3° ano, né? 

E também a gente pode conversar de vez em quando, né? Tchau.

 

-        A minha Vó tenta me explicar mas eu não entendo. Mas, na verdade, tem que voltar para escola, não é? Na escola que a gente aprende, essas aulas da televisão não são verdadeiras. As aulas da televisão são complicadas e estão fazendo confusão na minha cabeça.

    Na verdade, a gente tem que estudar na escola. Que essas aulas da televisão pra mim não funcionam.

 

 
-        Oi. Eu também prefiro ficar na escola, só que sem aquela gritaria toda, né?!
 

      

-        Também estresso com gritos. Tem que ficar mais silêncio para memorizar as matérias.

 

-        Oi, C. Eu vou fazer um Sonic de noite e daí a minha mãe manda pra vocês, pra ti ver como é que eu to desenhando… Que tu desenha melhor que eu um Sonic. E é isso.

 


    -        Vou desenhar o Sonic e mandar pra você. O celular é da minha vó e quando a gente chegar do trabalho a gente conversa.

 

-        É. Vamos ver hoje, né? Se a aula vai ser difícil ou fácil, né? Tchau.


(Diálogo entre colegas de 7 anos de Escola Municipal de Matinhos/PR, disponibilizado pelas crianças e familiares )

 

 

Pontos positivos e negativos

“Como ponto negativo das aulas, não dá pra tirar dúvidas e são bem rápidas. Como ponto positivo dá para entender com essa plataforma que está sendo utilizada, tem como escrever na tela para mostrar o que está acontecendo, onde tá. Mas não é a mesma coisa que na aula” (Aluna de Escola Particular de Matinhos – PR).

 

A professora tem mais tempo de explicar

 “[É] mais difícil porque em casa tem muita coisa pra fazer, tipo ver TV e brincar de lego e não tenho força pra fazer a tarefa. Mas a aula na escola é melhor, porque a professora tem mais tempo de explicar. Em casa a aula é rápida e é mais difícil de entender com a minha mãe explicando” (Aluno de Escola Particular de Matinhos – PR).

 

Minha mãe também é professora

Eu acho legal que pelo menos, eu consigo ver o pessoal da minha turma no aplicativo. É uma vez na semana, mas é melhor que não ver eles. O conteúdo não sei bem se vou fixar, mas tem como tirar dúvidas com os professores... E minha mãe também é professora, então eu não vejo muita dificuldade.” (Aluno de escola particular de Matinhos/PR)

 

Cansativo e não aprendi nada

A rotina é cansativa, porque temos que nos dedicar muito às tarefas. É bom porque não perde o ano, mas é muito cansativo e eu não aprendi nada. E muita gente nem está conseguindo ou querendo fazer as tarefas.” (Aluna de Escola Estadual de Matinhos/PR)

 

Minha irmã tem aulas no mesmo horário

Sinceramente, eu tento fazer tudo certinho. Meu pai também me cobra, mas ele fica fora de dia, no trabalho. Mas a dificuldade maior é minha irmã pequena, que também tem aulas no mesmo horário, por isso dividimos assim: eu faço as aulas nas segundas, quartas e sextas e ela nas terças e quintas. Isso nas tardes. Mas tem as noites também, para fazer as coisas que ficam faltando. Só que minha irmã é muito ansiosa e brigamos um pouco demais” (Aluno de Escola Municipal de Matinhos/PR).


Meu vizinho não tem filho

“Ficou mais fácil para mim quando meu vizinho deixou o computador aqui. Minha vó não tem como ajudar assim nas tarefas, já que ela não sabe muita coisa. Ela está nervosa com o corona também. Mas eu não acho muito certo ser obrigado a ter um computador em casa para aprender. Na minha rua ninguém tem um, só meu vizinho que não tem filho” (Aluna de Escola Municipal de Matinhos/PR).

 

Sinto falta de sair e de esporte

“Eu gosto de sair, ir no taekwondo e andar de bicicleta. Eu sinto mais falta disso, de sair, fazer esporte, que não tem nessa rotina. Da escola também, mas eu consigo fazer as aulas na casa da minha vó, porque lá tem internet melhor e minha mãe não quer que eu fique sozinha em casa” (Aluna de Escola Estadual Matinhos/PR).

 

 

O QUE RELATAM E PENSAM OS FAMILIARES / 01

Isto preocupa

“Não está sendo fácil, pois como trabalho fora não consigo acompanhar as aulas com ele. E sem contar que ele não consegue assimilar muita coisa, pois diz que as matérias são para crianças que moram em Curitiba (risos). E que as aulas não são verdadeiras. Ele fica inquieto quando sabe que terá que assistir as aulas, várias vezes teve crise de choro, isto nos preocupa muito (...) Tenho medo dele perder o interesse pelos estudos” (Avó de aluno de 7 anos, Escola Municipal de Matinhos-PR).


Agora virou uma sobrecarga

“No início eu achei que seria mais fácil. Agora virou uma sobrecarga, porque não estou dando conta mais. Eu achava que ia ocupar mais o tempo dela, sabe? De um jeito mais produtivo, entende? Só que eu me sinto limitada, tenho mais gente em casa para atender, tarefas de casa e do trabalho” (Mãe de aluna de Escola Municipal de Matinhos/PR).

 

Vai ser um ano diferente

“Eu acredito que as crianças não podem ficar para trás. Só que vai ser um ano diferente, sem tanto desenvolvimento. Mas depois vamos recuperar, depois que isso acabar” (Pai de aluno de Escola Estadual de Matinhos/PR).

 

Estadual e colégio pago

“O que percebo é uma diferença na questão de ser estadual e se for colégio pago. Minha patroa tem um filho da mesma idade e ele tem menos compromissos, ela disse. Parece que é só alguns dias. Ela até se apavorou quando viu as aulas todas que o meu sobrinho tem para fazer.” (Tia de aluno de Escola Estadual de Matinhos/PR)

 

Meu filho é estudioso

Minha sorte é que meu filho é estudioso, dedicado, porque nem sei como está. Mas tem dias, assim, … até reclamou que não consegue fazer pelo aparelho dele. Precisa esperar o pai chegar para usar o celular. Mas, no caso, assim, ele tem orgulho de ser estudioso. Ele disse que os amigos não estão fazendo as tarefas”. (Mãe de aluno de Escola Estadual de Matinhos/PR)

 

Ele tem saudades

“Ele não aceita estas aulas e diz que a nossa casa não é a mesma coisa que a escola, que tem saudades dos amiguinhos,  da profe.  Diz que na escola que se aprende. (Avó de aluno de 7 anos, Escola Municipal de Matinhos-PR).

 

Tempo para acompanhar

“Tenho dois filhos na escola... e a nossa maior dificuldade é prender a atenção deles todo o tempo de aula. E a minha maior dificuldade é o tempo disponível para acompanhar eles. Que não é todas as aulas que consigo estar ao lado deles para assistir as aulas” (Mãe de alunos, Escola Municipal de Matinhos-PR).

 

Brincadeiras, relações e desenvolvimento

“Em um primeiro momento, não foi fácil adequar atividades de rotina, pois a sensação inicial deles era de descanso, ocupavam o tempo com vídeos e filmes, mas para não ficar tudo muito confuso e atribuído a um caráter de ‘férias’, institui pequenas tarefas e horários para algumas atividades. Mas a solidão do isolamento, mesmo com todos em casa surgiu, devido à falta de contato com colegas, brincadeiras e relações que acreditamos ser essenciais para o desenvolvimento dos pequenos… (Mãe de aluno de Escola Municipal de Matinhos-PR).

 

Não vemos vantagens

“Está sendo um pouco mais complicado, pois sem as explicações dos professores em sala torna o aprendizado do aluno mais difícil.
Eu como pai não tenho total conhecimento pra fazer com que meu filho aprenda da forma correta. Não vemos muitas vantagens nessa forma de aprendizado, pois estamos falando de crianças tentando aprender com vídeo aulas. Pra nós adultos e fácil, mas para as crianças torna tudo mais complicado.” (Pai de aluno de Escola Estadual de Matinhos/PR)

 

Ajustar, pausar, voltar...

Bem difícil na primeira semana, mas aos poucos estão se tornando mais corriqueiras, está havendo um ajuste da didática estabelecida com cada um dos professores. Mas ainda assim um pouco perdido com relação a comandos: ‘é para copiar?’; ‘é para fazer agora?’ A interatividade com o professor fica deficiente...  A transferência de uma aula para outra as vezes fica com a linguagem vaga e então precisamos pausar ou voltar o vídeo e então de acordo com a disciplina a aula fica extensa, provocando desinteresse” (Mãe de aluno de 10 anos, Escola Municipal de Matinhos-PR).

 

Pela manhã, à tarde… tem sido cansativo

“Ele até faz a tarefa, mas tem dias que é bem difícil e ele reclama que é muita coisa, aí divido em duas partes. Ele faz um pouco pela manhã e o restante à tarde. Para eu tem sido cansativo em questão do bebê [irmão de dois meses] que é muito novinho e precisa de atenção e imagino que para as mães que trabalham fora tem sido difícil também, além daquelas que não tem acesso à internet” (Mãe de aluno, Escola Municipal de Matinhos- PR)

 

Ela gosta e eu gostaria de ter tempo

“Na hora da aula que tá difícil, porque assim, eu entro as 14:00 horas para trabalhar. Das 13:30 até as 14:00 eu consigo ver a aula com ela, depois disso sempre fica pela metade a aula dela. Porque assim, a irmã não consegue ajudar e o pai dela não ajuda, ou ajuda bem pouco (...) O que eu estou fazendo é imprimir umas aulas para ela, que o município manda e daí faz essas que fica mais fácil do que assistir tudo de novo com ela. Porque daí eu perco bem mais tempo. Mas ela gosta e eu gostaria de ter mais tempo para fazer junto com ela, mas não tem como, porque eu trabalho o dia inteiro”. (Mãe de aluna de 6 anos, Escola Municipal de Matinhos – PR)

 

Melhorou porque criou uma disciplina

“Tenho duas crianças, de 05 e 09 anos, basicamente acordam as 09:00 horas assistem desenhos, brincam com brinquedos, aparelhos eletrônicos, assistem aulas pela TV, fazem desenhos, brincam com cachorro. Estas aulas são um improviso para situação que pegou todos, mas a partir do dia que foram oferecidas a rotina do isolamento melhorou porque criou uma disciplina. Antes não tinham muitos compromissos, agora as crianças e para os pais que sentem que tem um vínculo com a escola, tem um grupo no WhatsApp onde eles enviam as fotos e as atividades para a professora e os amigos. Acho que as aulas oferecidas pela TV não são o ideal para aprender, mas é o que foi possível fazer rapidamente” (Mãe de alunos, Escola Municipal de Matinhos – PR).

 

Forçar fazer ou respeitar a “falta de vontade”

“Bem difícil conciliar trabalho remoto e aulas remotas, além de não conseguir dar a atenção que a criança necessita tem a questão de não ter o equipamento adequado, enquanto um usa o notebook o outro usa o celular. Além disso é preciso apoio nas tarefas, auxílio nas explicações que muitas vezes não estamos qualificados para dar. Pessoalmente, sigo com dúvidas se devo forçá-lo a fazer as atividades propostas ou respeitar sua falta de vontade, totalmente justificada pelo momento que passamos” (Mãe de aluno, Escola Particular de Matinhos – PR).


Crianças que não tem acesso

“Não sei como seria se tivesse que explicar o conteúdo sem voltar ou pausar os vídeos. Portanto, me preocupo com crianças que não tem acesso a aparelhos eletrônicos e se veêm diante do conteúdo somente pela televisão. Acredito que sem a pausa e retorno ao conteúdo ele não estaria absorvendo” (Mãe de aluno de Escola Municipal de Matinhos).


Conhecendo nossa equipe



Somos um grupo de pesquisadores que integra o projeto Territórios urbanos e oferta de programações esportivas, vinculado a UFPR Litoral e a Rede Cedes – PR. Nossa pesquisa se preocupa em compreender quais são as atividades de esporte e/ou lazer desenvolvidas pelas crianças no tempo em que não estão na escola.Nossa equipe é formada pelos docentes:

Luís Eduardo Thomassim, graduado em Educação Física pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2004) e doutorado em Ciências do Movimento Humano pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2010). Atualmente é professor adjunto da Universidade Federal do Paraná (UFPR - Setor Litoral).

Marisete Hoffmann-Horochovski, doutora em Sociologia (2008), mestre em Sociologia (2003) e graduada em Ciências Sociais (1995) pela Universidade Federal do Paraná, e atualmente professora associada da Universidade Federal do Paraná.

E pelas estudantes do curso de Licenciatura em Educação Física, Thalita Castro e Melissa Salvador.

 

 

Qual o objetivo deste blog?

    Criamos este Blog com objetivo de compartilhar relatos e opiniões de crianças e adultos sobre o momento em que vivemos, de isolamento social em decorrência da pandemia do coronavírus, com escolas fechadas e aulas remotas. Somos um grupo de pesquisadores que integra o projeto Territórios urbanos e oferta de programações esportivas, vinculado a UFPR Litoral e a Rede Cedes – PR, e nos preocupamos em compreender quais são as atividades de esporte e/ou lazer desenvolvidas pelas crianças no tempo em que não estão na escola. Mas agora, diante da situação que vivemos, onde o tempo dentro da escola está suspenso temporariamente, queremos saber como as crianças estão ocupando seu tempo em período integral, com a escola dentro da casa, seja com atividades remotas ou aulas online, seja com dificuldades provenientes desse arranjo. Interessa para nós criar um espaço de relatos das realidades vividas pelas crianças e seus responsáveis, de troca de experiências, que podem ajudar a entender melhor e enfrentar esse período tão difícil. Nosso objetivo é estimular mais canais de interlocução entre famílias, crianças, professores e gestores da educação. 

Se quiser colaborar com esta pesquisa, basta você nos enviar sua opinião sobre as duas perguntinhas abaixo pelo e-mail : lugardecrianca.ufprlitoral@gmail.com, informando também sua cidade, a escola e idade das crianças.

 

1 - Como está a rotina das crianças e de suas famílias durante esse período que as Escolas estão fechadas?


 2 - Como está sendo para a criança a experiência de assistir aulas e/ou desenvolver atividades remotas em casa?

 

Desde já agrademos sua participação.

 Mais informações acesse:

http://www.litoral.ufpr.br/portal/corona/mare/